Não sei exatamente por que, mas o blog recentemente tem atraído um público significativamente maior que no último ano. Por enquanto, isso tem sido positivo, visto que discussões saudáveis têm acontecido entre investidores realmente interessados em estudar e se desenvolver. Meu último post de fechamento, por exemplo, foi um festival de perguntas técnicas sobre empresas.
Sendo assim, resolvi fazer um apanhado de algumas questões que têm sido recorrentes, algumas delas já abordadas anteriormente. Faz parte: estudar investimentos, assim como em filosofia, envolve estar sempre voltando aos mesmos pontos, como em círculos. Não são ciências lineares, com respostas certeiras e pelas quais se pode tirar conclusões definitivas. Sempre decorrem novos pontos de vista e novas nuances a serem analisadas.
O que me inspirou a criar este post foram as perguntas sobre "se a ação X está cara". Quando me perguntam algo deste tipo, inúmeras coisas me vêm imediatamente à cabeça. Comecemos do início.
Após algumas frustrações com amigos, estou convencido: análise de empresas não é para qualquer um, como se vende em vários livros. E digo isso pelo seguinte: analisar empresas absolutamente não é necessário para se formar uma boa carteira.
Existem duas áreas distintas dentro do estudo sobre investimentos: gestão de portfólio e análise de empresas. Ambas importantes, porém a primeira é fundamental, já a segunda não. Um erro na primeira área pode causar prejuízos terríveis e arruinar uma carteira de investimentos. Um erro na segunda também, porém não para um investidor que se preocupou com a primeira.
Resumo: a decisão fundamental em uma carteira de investimentos diz respeito ao gerenciamento de seu portfólio.
Não está entendendo nada? Deixe-me explicar melhor.
Gestão de portfólio é a área onde são abordados assuntos como: quais classes de ativos investir, qual percentual de alocação em cada classe, quantas ações possuir na carteira, metodologia de aportes, rebalanceamento e sua periodicidade, gestão ativa ou passiva, etc. Aqui está o cerne de toda carteira de investimentos, visto que é através da gestão inteligente do portfólio que a decisão sobre risco/retorno esperado poderá ser definida pelo investidor.
Já na análise de empresas é onde executamos a análise qualitativa e quantitativa de cada empresa específica, e isso envolve: estimativa de um preço justo (ou valor intrínseco), cálculo da margem de segurança, análise relativa, estudo do setor, análise do produto ou serviço, análise dos balanços e relatórios, análise da governança, etc.
Bem diferentes, não? E repetindo: o fundamental está em gestão de portfólio. Mas deixarei este assunto para outra ocasião. Aliás, estou devendo alguns textos para o blog...
Neste artigo, como anunciado, farei um apanhado de questões que têm sido recorrentes, além de algumas basilares ao estudo do investimento. Comentários curtos, porém abrangentes, de forma a deixar delineado, dentro do possível, o que penso sobre o assunto. Então vamos lá.
Análise técnica
Mostre-me algum "tubarão" do mercado que tenha cabelos brancos. Isso não significa nada? Então outra: mostre-me algum analista técnico bilionário que ganhou dinheiro consistentemente ao longo de mais de vinte anos. Não vale alguém que ficou rico em apenas algumas tacadas, porque isso estatisticamente tem de acontecer. Não existe? Suspeito que haja algum motivo.
Ainda não fui convincente? Então pense: se existe algum meio de prever um comportamento futuro através da análise de dados que seja estatisticamente favorável, por que algum milionário não comprou um computador da NASA e colocou uma equipe com vinte hackers selecionados a dedo da Rússia e Oriente Médio para programar o operacional mais perfeito da face da Terra capaz de combinar 300 mil dados simultâneos e realizar 2 mil operações por segundo? Se existe 0,1% de probabilidade a favor, creio que este método daria bilhões em algumas dezenas de dias... Mas por que ninguém fez? Suspeito que não exista probabilidade a favor no que tange ao comportamento do mercado.
Gestão de portfólio
Pense no seguinte: o que você crê que seja mais provável no mercado de ações: ficar magnificamente rico, ou ficar miseravelmente pobre? Acho que é uma questão óbvia, já que temos vários exemplos da segunda hipótese e pouquíssimos da primeira. A grosso modo, podemos então dizer que dos que tomam altíssimos riscos, apenas uma seleta minoria obtém altíssimos retornos. Por outro lado, sabemos que quanto mais diversificada é uma carteira de ações, ou ainda, quanto mais títulos do governo possui uma carteira, menor a chance desta colapsar. Desta feita, é forçoso dizer que uma estratégia que minimize os riscos tenha mais chance de ser bem sucedida do que uma que tente maximizar os retornos.
Ou por outra: abdicar da possibilidade de performances extraordinárias pode ser frustrante, mas talvez seja a melhor decisão.
Renda fixa
As ações são o melhor investimento no longo prazo. Ponto. O equity premium só existe porque existe uma expectativa de retorno superior por parte das ações num prospecto futuro.
Porém, também sabemos que ativos com correlação negativa, quando combinados, elevam a expectativa de retorno de uma carteira, e isso quer dizer o seguinte: não faça como eu fiz, e tenha seu percentual em renda fixa, além de combinar outros ativos com correlação negativa.
Stock picking
Stock picking quer dizer selecionar a dedo as próprias ações, e para falar disso no Brasil temos de levar alguns pontos em consideração: 1) existe uma vantagem tributária em relação aos ETF's onde vendas abaixo de R$ 20 mil mensais são isentas da alíquota de 15% de imposto de renda; e 2) o Brasil é pobre em ETF's e a composição do nosso índice de mercado (Ibovespa) é péssima e não representa o retorno geral do mercado acionário.
Feitas as ressalvas, afirmo: mesmo assim para o investidor comum investir em ETF's é a melhor opção, porque o investidor comum não suporta a pressão psicológica de ver a carteira cair 30% e não vender; porque o investidor comum gira a carteira excessivamente; porque o investidor comum não diversificará o suficiente; porque o investidor comum cometerá erros de análise; porque para o investidor comum os 15% de diferença no imposto de renda não farão a menor diferença perante aos pontos que provavelmente ficará abaixo do rendimento do índice.
Mesmo assim quer fazer stock picking? Então te pergunto: você entende que análise de empresas se aproxima mais de uma arte que de uma ciência? Você entende que inevitavelmente cometerá erros que jogarão para baixo sua rentabilidade? Você está ciente de que comprando o ETF e não fazendo mais absolutamente nada você provavelmente se sairá melhor? Você sabe que 80% dos investidores perdem para o índice no longo prazo? Você consegue imaginar o esforço e o desgaste de ficar analisando um monte de empresas e lendo balanços algumas vezes ao ano? Você sabe que sua planilha ridícula de comparativo de P/L's não é nada perto de softwares profissionais como o Economatica? Você calcula o tamanho de sua soberba em achar que é capaz de bater o mercado? Mesmo assim quer fazer stock picking? Ok, bem-vindo ao clube.
Diversificação
Pelo amor de Deus, esqueça o Axiomas de Zurique! É um livro com alguns bons insights, mas não tente aplicá-lo à risca.
É difícil assumir, mas na maior parte do tempo estamos errados, nossas análises são falhas e não sabemos exatamente o que estamos fazendo. A solução para isso é a diversificação. Não iremos acertar sempre, precisamos apenas acertar mais do que erramos, e focar em proteger-nos de nós mesmos.
Ser sócio das melhores empresas...
não é sinônimo de obter os melhores retornos. Tudo dependerá do preço a ser pago pelo investimento. Empresas caras têm de apresentar resultados fantásticos para gerar altos retornos. Empresas baratas geram altos retornos com resultados apenas razoáveis. Escolher empresas com retornos futuros razoáveis é mais fácil que escolher empresas com retornos futuros extraordinários.
P/L
Uma empresa P/L 5 retorna o seu investimento em 5 anos caso mantenha sua lucratividade constante. Uma empresa P/L 20 precisa de um aumento anual de cerca de 70% dos lucros durante os mesmos 5 anos para te dar o mesmo retorno. Uma empresa P/L 5 está barata em um setor com P/L médio de 20.
Isso pode ser útil, mas o P/L não serve para muito além disso.
Growth caps x value caps
Existe uma expectativa de retorno superior por parte das value caps em relação as growth caps. Existem tantos estudos e livros que corroboram essa afirmação que, para mim, quem ainda não entendeu é porque não quis. Value caps, juntamente da maior expectativa de retorno, possuem maior risco. É a mesma discussão de que ser sócio das melhores empresas não te garantirá os melhores retornos. Aliás, nada que você fizer te garantirá retornos sequer satisfatórios no mercado de ações.
Sócio x trade e trade de valor
Definições fracas, que não encontram respaldo na literatura. Prefiro trabalhar com "investimento x especulação", aí sim uma definição que faz todo sentido e pode ser tratada de forma madura. Segundo a "sócio x trade", se você não comprar uma empresa que julga excelente ou colocar o preço como variável a ser analisada, você estará fazendo um trade. Nada mais absurdo: primeiro porque sua análise pode estar errada, segundo porque isso implica que se uma empresa piorar ela se torna uma empresa "trade" (?), e terceiro porque rios de dinheiro podem ser ganhos investindo em empresas em recuperação, ou empresas mal precificadas por problemas temporários.
Estimar uma margem de segurança para o investimento é "trade de valor"? Piada, até mesmo porque este termo é inexistente na literatura.
Moedas e ouro
Ambos não são ativos geradores de renda, portanto, possuem expectativa de retorno real próxima de zero no longo prazo. Investir em ouro ou em alguma moeda só faz sentido do ponto de vista de diversificação, de atenuar os riscos e diminuir o desvio padrão da carteira. Se você compra dólar porque acha que vai subir, você está especulando e não investindo. Não há problema nenhum nisso, desde que você saiba o que está fazendo.
Bitcoin? Entra no mesmo conceito. A menos que você consiga estabelecer um preço justo para esta moeda e justificativas razoáveis para tal, você também estará especulando.
Risco x retorno
Esse deve ser o norte de qualquer investidor antes de realizar qualquer investimento. Não faz sentido comprar, por exemplo, FII's caso seu prêmio de risco esteja negativo, o que quer dizer que se estará assumindo um risco adicional para uma expectativa de retorno menor que a taxa livre de risco.
Sempre devemos ter em mente quanto ganharíamos na taxa livre de risco. E isso exige que entendamos um pouco de preço, um pouco de risco e um pouco sobre retorno esperado.
A ação X está cara?
Para fechar, uma questão aparentemente simples, porém das mais complexas. Se achava que ser cara ou não é uma questão de P/L, lamento: exige uma análise minuciosa. O adjetivo "cara" carece de um parâmetro, e aqui é onde mora o problema, pois o parâmetro é o valor intrínseco, algo nada simples de ser estimado. Sim, também podemos dizer que uma empresa está cara comparando-a com seu setor, mas não é esse o objetivo de quem normalmente faz a pergunta.
Se tem algo complicado, ambíguo e trabalhoso dentro do estudo sobre investimentos é o tal cálculo do preço justo. Sugiro desconfiar de alguém que tem opiniões sobre o preço de muitas empresas, porque isso exige um estudo detalhado do setor e das empresas concorrentes, dos produtos e serviços, da qualidade da administração, do potencial de crescimento, envolve intangíveis como marcas ou patentes, e mais um emaranhado de minúcias que dificilmente permitem que um investidor tenha segurança para falar sobre o preço de mais de dez empresas (na maioria dos casos sequer de uma). Olhar para um P/L e dizer que uma empresa está cara é ignorar o que talvez seja o principal fator de perpetuidade de uma companhia: sua qualidade.
segunda-feira, 27 de março de 2017
quarta-feira, 22 de março de 2017
Há doze meses atrás, BTG anunciava o "ano da carne"
É isso mesmo! Para os que não se lembram, há exatos um ano e um dia este blog havia comentado a recomendação das ações Marfrig (MRFG3) e Minerva (BEEF3) por parte do banco BTG. O post pode ser conferido aqui.
Como estão acostumados, este investidor é cético com qualquer tipo de previsão. Estamos repletos de exemplos da incompetência humana em prever os movimentos do mercado, especialmente os de curto prazo. Não estivesse preocupado apenas com ganhar cliques, o Infomoney poderia dar destaque a alguma matéria sobre gestão de portfólio ou alocação de ativos; fossem um pouquinho mais experientes, os analistas do BTG jamais se arriscariam a prever algo desse tipo, muito menos com frases de efeito como fizeram.
E o destino adornou-se com os caprichos da ironia mais perversa. Não bastassem os resultados variando entre o mediano e o péssimo, os "doze meses de investimento" recomendados pelo banco encerraram-se exatamente no deflagrar de uma estrondosa operação da polícia federal no setor de carnes.
Resultado da conversa: a Marfrig, com "preço-alvo" de R$ 10,00 cotada a R$ 5,44; e a Minerva, com "preço-alvo" de R$ 18,00 cotada a R$ 9,24. Antes que eu me esqueça: quem investiu no índice e atirou pela janela o notebook ignorando as ilustríssimas recomendações do BTG obteve 23% de valorização.
E depois sou eu quem implica com os analistas...
Como estão acostumados, este investidor é cético com qualquer tipo de previsão. Estamos repletos de exemplos da incompetência humana em prever os movimentos do mercado, especialmente os de curto prazo. Não estivesse preocupado apenas com ganhar cliques, o Infomoney poderia dar destaque a alguma matéria sobre gestão de portfólio ou alocação de ativos; fossem um pouquinho mais experientes, os analistas do BTG jamais se arriscariam a prever algo desse tipo, muito menos com frases de efeito como fizeram.
E o destino adornou-se com os caprichos da ironia mais perversa. Não bastassem os resultados variando entre o mediano e o péssimo, os "doze meses de investimento" recomendados pelo banco encerraram-se exatamente no deflagrar de uma estrondosa operação da polícia federal no setor de carnes.
Resultado da conversa: a Marfrig, com "preço-alvo" de R$ 10,00 cotada a R$ 5,44; e a Minerva, com "preço-alvo" de R$ 18,00 cotada a R$ 9,24. Antes que eu me esqueça: quem investiu no índice e atirou pela janela o notebook ignorando as ilustríssimas recomendações do BTG obteve 23% de valorização.
E depois sou eu quem implica com os analistas...
sábado, 4 de março de 2017
Fechamento - Fevereiro/2017: R$ 79.291,09 (+R$ 5.216,75 ou +7%)
Fechamos fevereiro, e mais um bom resultado para a carteira. Neste mês houve algumas particularidades, que abordarei logo mais.
A primeira delas é que, exatamente no dia 28, tive de abortar minhas operações com empréstimos. O fato é que eu já vinha recebendo metade do valor inicial (3,4% a.m.). A crise afetou bastante este meu conhecido, que por precaução teve de diminuir os empréstimos para alguns de seus clientes, cortar para outros, e acabou ficando com bastante dinheiro parado, o que significa que ele não precisaria mais de capital de terceiros.
Na primeira ocasião, em que ele me informou que teria de diminuir a taxa para meu capital, optei por deixar mais alguns meses com ele para não ter o trabalho de depositá-lo em minha conta e aplicá-lo novamente, e na esperança de que as antigas taxas voltariam. Isso não aconteceu e, num rompimento amigável (que partiu da parte dele), tomei de volta meu capital.
O problema é que eu não estava preparado para tal. O valor de meu capital em empréstimos é algo em torno de 15% do meu patrimônio, e ele cumpria um papel importante de atenuação do desvio padrão da carteira. Como não possuo aplicações em títulos, os empréstimos cumpriam esse papel (apesar de não possuírem correlação negativa).
Sendo assim, creio que finalmente iniciarei as minhas aplicações em renda fixa, por inclusive achar que o mercado de ações pode não estar tão atrativo como há alguns meses. Darei preferência a títulos de curto e médio prazo (os chamados bills e notes), com talvez algum título de proteção à inflação (TIPS). Devo deixar algo como R$ 3 mil em um CDB com liquidez diária atrelado ao CDI, e o resto dividido entre um CDB de algum banco com rating pior, e provavelmente no tesouro atrelado ao IPCA. Ainda retirarei uma parte deste montante para reaplicação em uma de minhas empresas. O valor referente ao aporte do próximo mês também será dedicado a alguma ação. O objetivo é, aos R$ 150 mil, ter algo entre 15% a 20% aplicado na renda fixa. Farei isso vagarosamente.
Agora vamos aos números:
1- Evolução patrimonial
O patrimônio atingiu R$ 79.291,09, apresentando uma subida de 7%. Ótimo resultado, e percebe-se que já vamos distanciando do patrimônio projetado para este mês, o que quer dizer que estou indo melhor do que planejei. Um detalhe: não mudarei este valor de patrimônio projetado, mesmo que me distancie muito em função de rentabilidade ou aporte. Quero deixá-lo assim afim de ver o quanto consegui superar o meu primeiro planejamento quando alcançar o milhão.
Abaixo, a evolução em forma de tabela.
Patrimônio Crescimento Porcentagem
ago/15 R$ 28.239,00 R$ - 0%
set/15 R$ 25.717,00 -R$ 2.522,00 -10%
out/15 R$ 30.574,00 R$ 4.857,00 16%
nov/15 R$ 31.093,90 R$ 519,90 2%
dez/15 R$ 31.161,00 R$ 67,10 0%
jan/16 R$ 32.931,50 R$ 1.770,50 5%
fev/16 R$ 36.189,50 R$ 3.258,00 9%
mar/16 R$ 38.674,00 R$ 2.484,50 6%
abr/16 R$ 43.872,81 R$ 5.198,81 12%
mai/16 R$ 44.558,01 R$ 685,20 2%
jun/16 R$ 47.703,08 R$ 3.145,06 7%
jul/16 R$ 50.950,69 R$ 3.247,61 6%
ago/16 R$ 55.074,42 R$ 4.123,73 7%
set/16 R$ 54.551,57 -R$ 522,85 -1%
out/16 R$ 64.219,69 R$ 9.668,12 15%
nov/16 R$ 63.058,28 -R$ 1.161,41 -2%
dez/16 R$ 64.466,41 R$ 1.408,13 2%
jan/17 R$ 74.074,34 R$ 9.607,93 13%
fev/17 R$ 79.291,09 R$ 5.216,75 7%
2- Comparativo de rentabilidades
Rentabilidade mensal: 4,01%
A primeira delas é que, exatamente no dia 28, tive de abortar minhas operações com empréstimos. O fato é que eu já vinha recebendo metade do valor inicial (3,4% a.m.). A crise afetou bastante este meu conhecido, que por precaução teve de diminuir os empréstimos para alguns de seus clientes, cortar para outros, e acabou ficando com bastante dinheiro parado, o que significa que ele não precisaria mais de capital de terceiros.
Na primeira ocasião, em que ele me informou que teria de diminuir a taxa para meu capital, optei por deixar mais alguns meses com ele para não ter o trabalho de depositá-lo em minha conta e aplicá-lo novamente, e na esperança de que as antigas taxas voltariam. Isso não aconteceu e, num rompimento amigável (que partiu da parte dele), tomei de volta meu capital.
O problema é que eu não estava preparado para tal. O valor de meu capital em empréstimos é algo em torno de 15% do meu patrimônio, e ele cumpria um papel importante de atenuação do desvio padrão da carteira. Como não possuo aplicações em títulos, os empréstimos cumpriam esse papel (apesar de não possuírem correlação negativa).
Sendo assim, creio que finalmente iniciarei as minhas aplicações em renda fixa, por inclusive achar que o mercado de ações pode não estar tão atrativo como há alguns meses. Darei preferência a títulos de curto e médio prazo (os chamados bills e notes), com talvez algum título de proteção à inflação (TIPS). Devo deixar algo como R$ 3 mil em um CDB com liquidez diária atrelado ao CDI, e o resto dividido entre um CDB de algum banco com rating pior, e provavelmente no tesouro atrelado ao IPCA. Ainda retirarei uma parte deste montante para reaplicação em uma de minhas empresas. O valor referente ao aporte do próximo mês também será dedicado a alguma ação. O objetivo é, aos R$ 150 mil, ter algo entre 15% a 20% aplicado na renda fixa. Farei isso vagarosamente.
Agora vamos aos números:
1- Evolução patrimonial
O patrimônio atingiu R$ 79.291,09, apresentando uma subida de 7%. Ótimo resultado, e percebe-se que já vamos distanciando do patrimônio projetado para este mês, o que quer dizer que estou indo melhor do que planejei. Um detalhe: não mudarei este valor de patrimônio projetado, mesmo que me distancie muito em função de rentabilidade ou aporte. Quero deixá-lo assim afim de ver o quanto consegui superar o meu primeiro planejamento quando alcançar o milhão.
Abaixo, a evolução em forma de tabela.
Patrimônio Crescimento Porcentagem
ago/15 R$ 28.239,00 R$ - 0%
set/15 R$ 25.717,00 -R$ 2.522,00 -10%
out/15 R$ 30.574,00 R$ 4.857,00 16%
nov/15 R$ 31.093,90 R$ 519,90 2%
dez/15 R$ 31.161,00 R$ 67,10 0%
jan/16 R$ 32.931,50 R$ 1.770,50 5%
fev/16 R$ 36.189,50 R$ 3.258,00 9%
mar/16 R$ 38.674,00 R$ 2.484,50 6%
abr/16 R$ 43.872,81 R$ 5.198,81 12%
mai/16 R$ 44.558,01 R$ 685,20 2%
jun/16 R$ 47.703,08 R$ 3.145,06 7%
jul/16 R$ 50.950,69 R$ 3.247,61 6%
ago/16 R$ 55.074,42 R$ 4.123,73 7%
set/16 R$ 54.551,57 -R$ 522,85 -1%
out/16 R$ 64.219,69 R$ 9.668,12 15%
nov/16 R$ 63.058,28 -R$ 1.161,41 -2%
dez/16 R$ 64.466,41 R$ 1.408,13 2%
jan/17 R$ 74.074,34 R$ 9.607,93 13%
fev/17 R$ 79.291,09 R$ 5.216,75 7%
2- Comparativo de rentabilidades
A carteira também apresentou uma ótima rentabilidade, e finalmente chegamos ao CDI. Ibovespa longe. Sem muito o que dizer a respeito.
Abaixo, os valores compilados:
Rentabilidade anual: 10,92%
Rentabilidade histórica: 21,06%
3- Aportes mensais
Com um aporte de R$ 2159, continuamos bem acima da meta de R$ 1700. O objetivo é superá-la com folga como no último ano.
Comecei há alguns meses a fazer um estudo cujo qual gostaria de compartilhar aqui no blog, basicamente comparando duas carteiras diversificadas entre boas value-caps e growth-caps ao longo do maior prazo possível em que encontrasse dados confiáveis, mas abortei esta ideia devido ao trabalho espantoso de coleta de dados e já antevendo as críticas de que o estudo não teria valor algum, sendo que eu já escolheria empresas que performaram bem ao longo do tempo. A verdade é que eu tive um trabalho enorme compilando dados e faria um estudo que soaria como risível para algum investidor profissional que assina a plataforma Economatica, por exemplo. Simplesmente não dá para fazer algo tão trabalhoso com base de dados gratuita, sendo que qualquer simples erro pode comprometer todo o resultado final e jogar por terra todo o meu esforço. Não dá para querer bancar o acadêmico usando ferramentas amadoras.
Outra coisa que estou percebendo é que não tenho escrito nada na página Filosofia de investimento, que é a página mais interessante aqui do blog. Estou com uns três artigos engatilhados sobre livros que pouca gente leu, entre eles o Security analysis, que é interessantíssimo e sobre qual nunca encontrei nada em português. Vamos ver se consigo soltá-los aos poucos por aqui.
Apesar de ter até reduzido minha participação nos blogs amigos neste último mês por falta de tempo, vejo que os objetivos principais vêm sido cumpridos, e a carteira tem evoluído consistentemente. Uma menção importante: estou gostando muito dos novos artigos que têm surgido na blogosfera abordando investimentos no exterior. Realmente está agregando muito à nossa comunidade.
Bem, por hoje é só.
Abraços a todos!
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
Fechamento - Janeiro/2017: R$ 74.074,34 (+R$ 9.607,93 ou +13%)
Sem muita enrolação, e postando com agilidade para facilitar o trabalho dos confrades que coletam dados para rankings, seguem os resultados da carteira neste mês de janeiro:
1- Evolução patrimonial
O patrimônio atingiu a marca dos R$ 74 mil, com uma expressiva valorização mensal, resultado de um bom aporte e uma bela rentabilidade da carteira. Por pouco não temos o melhor crescimento mensal histórico. Outra boa notícia é que estamos razoavelmente acima do patrimônio projetado, o que significa que o plano vem sendo cumprido.
Este início motiva para a grande meta do ano, que é atingir os R$ 100 mil. Confesso que estou obsessivo com esta meta e farei de tudo para cumpri-la. Sei que não é grande coisa ter R$ 100 mil investidos em ações, mas já é um bom primeiro passo.
Abaixo, a evolução patrimonial em forma de tabela:
Patrimônio Crescimento Porcentagem
ago/15 R$ 28.239,00 R$ - 0%
set/15 R$ 25.717,00 -R$ 2.522,00 -10%
out/15 R$ 30.574,00 R$ 4.857,00 16%
nov/15 R$ 31.093,90 R$ 519,90 2%
dez/15 R$ 31.161,00 R$ 67,10 0%
jan/16 R$ 32.931,50 R$ 1.770,50 5%
fev/16 R$ 36.189,50 R$ 3.258,00 9%
mar/16 R$ 38.674,00 R$ 2.484,50 6%
abr/16 R$ 43.872,81 R$ 5.198,81 12%
mai/16 R$ 44.558,01 R$ 685,20 2%
jun/16 R$ 47.703,08 R$ 3.145,06 7%
jul/16 R$ 50.950,69 R$ 3.247,61 6%
ago/16 R$ 55.074,42 R$ 4.123,73 7%
set/16 R$ 54.551,57 -R$ 522,85 -1%
out/16 R$ 64.219,69 R$ 9.668,12 15%
nov/16 R$ 63.058,28 -R$ 1.161,41 -2%
dez/16 R$ 64.466,41 R$ 1.408,13 2%
jan/17 R$ 74.074,34 R$ 9.607,93 13%
Rentabilidade mensal: 6,85%
1- Evolução patrimonial
O patrimônio atingiu a marca dos R$ 74 mil, com uma expressiva valorização mensal, resultado de um bom aporte e uma bela rentabilidade da carteira. Por pouco não temos o melhor crescimento mensal histórico. Outra boa notícia é que estamos razoavelmente acima do patrimônio projetado, o que significa que o plano vem sendo cumprido.
Este início motiva para a grande meta do ano, que é atingir os R$ 100 mil. Confesso que estou obsessivo com esta meta e farei de tudo para cumpri-la. Sei que não é grande coisa ter R$ 100 mil investidos em ações, mas já é um bom primeiro passo.
Abaixo, a evolução patrimonial em forma de tabela:
Patrimônio Crescimento Porcentagem
ago/15 R$ 28.239,00 R$ - 0%
set/15 R$ 25.717,00 -R$ 2.522,00 -10%
out/15 R$ 30.574,00 R$ 4.857,00 16%
nov/15 R$ 31.093,90 R$ 519,90 2%
dez/15 R$ 31.161,00 R$ 67,10 0%
jan/16 R$ 32.931,50 R$ 1.770,50 5%
fev/16 R$ 36.189,50 R$ 3.258,00 9%
mar/16 R$ 38.674,00 R$ 2.484,50 6%
abr/16 R$ 43.872,81 R$ 5.198,81 12%
mai/16 R$ 44.558,01 R$ 685,20 2%
jun/16 R$ 47.703,08 R$ 3.145,06 7%
jul/16 R$ 50.950,69 R$ 3.247,61 6%
ago/16 R$ 55.074,42 R$ 4.123,73 7%
set/16 R$ 54.551,57 -R$ 522,85 -1%
out/16 R$ 64.219,69 R$ 9.668,12 15%
nov/16 R$ 63.058,28 -R$ 1.161,41 -2%
dez/16 R$ 64.466,41 R$ 1.408,13 2%
jan/17 R$ 74.074,34 R$ 9.607,93 13%
2- Comparativo de rentabilidades
A carteira obteve uma boa rentabilidade, porém novamente comeu poeira para o Ibovespa. Nos últimos doze meses, vimos a Petrobras triplicar e a Vale quadruplicar seu preço no mercado. Está difícil acompanhar —ao menos por enquanto.
No acumulado, ainda figuramos ligeiramente abaixo do CDI, porém, o tempo analisado ainda é muito curto. Com o passar dos anos, este comparativo fica muito mais interessante —como pode ser observado em outros blogs. Espero que estejamos aqui para conferir.
Abaixo, o compilado:
Rentabilidade anual: 6,85%
Rentabilidade histórica: 16,96%
3- Aportes mensais
Conforme mencionado, um bom aporte para os padrões da carteira. A meta mensal ainda se mantém a mesma.
Sem mais delongas, ficamos por aqui. A todos, um excelente ano!
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
Springs: analisando a "nova Ambev de seu setor"
A Springs Global Participações é uma empresa que atua na produção e varejo de produtos têxteis para o lar, sendo resultado da combinação entre a Coteminas, sediada no Brasil, e a Spring Industries, sediada nos Estados Unidos. Os seus produtos incluem lençóis para cama, fronhas, edredons, colchas, protetores de colchão, travesseiros, cobertores, toalhas, cortinas para chuveiro, tapetes de banheiro e acessórios para banho.
Pois bem. Eis que, lendo o Infomoney (sempre ele), deparo-me, por dois dias consecutivos, com as seguintes manchetes:
Os links para as reportagens completas estão aqui e aqui.
Esse é o tipo de texto que eu considero particularmente perigoso para o investidor em valor, adepto ao buy and hold, que almeja construir uma carteira de ações para o longo prazo. Digo isso porque logo nos títulos temos uma armadilha clássica, que desenvolve-se no decorrer dos textos, dando a entender que a alta recente no preço dos papéis possuem correlação com a situação da companhia, e pior, com seu futuro.
A Springs não é uma boa empresa e jamais será uma Ambev. Mas antes de justificar-me, deixem-me mostrar-lhes o tipo de coisa que eu não gosto de ler.
"(...) a empresa explicou que um motivo para a alta poderia ser o corte da Selic, mas segundo analistas esta disparada vai além apenas da queda dos juros. Em entrevista ao Infomoney, a diretora de Relações com Investidores da Springs, Alessandra Gadelha, falou um pouco sobre o momento atual da companhia e como o futuro pode ser ainda melhor.
Segundo ela a queda da taxa de juros contribui para a redução da despesa financeira da companhia e, consequentemente, para ampliação de seu resultado e de sua geração de caixa. No fim do terceiro trimestre, a dívida bruta atrelada ao CDI da Spring Global, somava aproximadamente R$ 600 milhões. "Assim, a redução de 1 ponto percentual da taxa de juros representa economia ou ganho de R$ 6 milhões por ano, equivalente a 25% do lucro realizado em 2015", explica.
(...) Hoje, a Springs Global perdeu tamanho, mas ainda é a maior das Américas, valendo cerca de R$ 200 milhões. "A única justificativa para isso é o total desconhecimento do mercado da sua existência, que se reflete na sua baixa liquidez", afirma Reis, completando que esta é uma ótima oportunidade para o investidor que busca ações para médio e longo prazo."
Perceberam? No primeiro trecho, uma mudança no cenário macroeconômico é apontada como força locomotora para o desempenho da companhia; no segundo, o tal gestor e blogueiro do Infomoney afirma que a empresa é uma ótima oportunidade para o médio e longo prazo. Pode ser? Sim, mas, indubitavelmente, o investidor comum não tem a menor condição de avaliá-la como promissora, já que o que o histórico da Springs a mostra como uma péssima empresa; ou por outra: comprar a Springs é apostar em um cavalo. Pode até dar certo, mas não é algo muito sensato.
Como tive o trabalho de analisá-la com um pouco mais de atenção, percebi que ela não passa nos filtros mais básicos para o investidor que almeje comprar boas empresas que mantenham ou aumentem seu desempenho ao longo do tempo. Sim, sei que existem aqueles que buscam por turnarounds, e que este poderia ser um caso de uma delas, porém, meu ponto é que a situação da Springs não é e nem foi boa em, pelo menos, nos últimos dez anos.
Sendo assim, vamos aos motivos pelos quais eu jamais compraria esta empresa e que impedem que ela se torne uma Ambev.
1. Falta de transparência nos relatórios
Li um bocado de relatórios da Springs e achei curioso o fato de que, assim como muitas outras empresas, para ela os releases não passam de meros panfletos publicitários. Explico.
Primeiro vamos ao que eu entendo por um release: um release deve ser utilizado pela empresa como um meio de dialogar francamente com o acionista apontando de forma objetiva os fatos mais relevantes do período. Esse ponto é fundamental, porque os fatos mais relevantes não necessariamente se referem às notícias mais positivas.
Pois bem. Logo de cara, na primeira página de seus releases, vemos, como padrão, um campo com os "destaques do desempenho da Springs", onde são colocadas as notícias mais positivas do período, onde deveriam ser colocados os fatos mais relevantes.
Outra: vejam a tabela que, também por via de regra, sempre nos é apresentada na primeira página:
Percebam que na tabela está constando apenas o lucro bruto da companhia. O que é o lucro bruto? Respondo: é o lucro que não importa. O que deveria estar na primeira página, impreterivelmente, é o lucro líquido do período, pois é este o lucro que realmente vale para o acionista. Neste caso (3T16), a empresa apresentou prejuízo, e isto é claramente escondido do acionista por todo o release, só aparecendo em uma tabela anexa no fim de todos os comentários.
Duvidam? Pois replico na totalidade o que está escrito no tópico "lucro".
"O lucro bruto totalizou R$ 162,3 milhões no 3T16, com margem bruta de 26,3%. O aumento da receita líquida foi superior ao do CPV, em termos absolutos, porém inferior, em termos relativos, proporcionando ampliação de 0,4% do lucro bruto, mas redução de 0,6 p.p. da margem bruta.
O resultado financeiro foi uma despesa de R$ 57,1 milhões no 3T16, versus despesa de R$ 28,1 milhões no 3T15, quando houve efeito positivo de R$ 21,6 milhões de variação cambial líquida, devido à desvalorização do Real no 3T15.
As despesas financeiras – juros e encargos – ampliaram em R$ 4,5 milhões, enquanto as despesas bancárias, impostos, descontos e outros reduziram em R$ 1,4 milhão. As receitas financeiras reduziram em R$ 1,5 milhão, apesar do maior montante de recursos aplicados no 3T16, pois houve aumento da sua parcela aplicada no exterior, com menores taxas de juros, quando comparadas às do Brasil.
O saldo das variações cambiais foi negativo em R$ 2,8 milhões no 3T16, refletindo a valorização do Real no trimestre na posição líquida de ativos em dólar, ante valor positivo de R$ 21,6 milhões no 3T15. Excluindo o resultado da variação cambial, houve uma melhora de R$ 10,0 milhões no resultado líquido da Companhia entre anos.
Assinamos, em julho de 2016, contrato de locação de 30 mil m2 do terreno de São Gonçalo do Amarante, equivalente a 3,6% da área total. O contrato de aluguel tem prazo de 20 anos, sendo renovável por mais 20 anos.
Vemos este contrato como o início da realização do valor potencial do ativo não operacional de São Gonçalo do Amarante. A chegada do primeiro varejista irá acelerar a negociação com outros interessados, além de tornar mais evidente seu valor de mercado."
Encerro: uma empresa que apresentou prejuízo no trimestre deve invariavelmente apresentar logo na primeira página uma justificativa ao acionista, que investe seu suado dinheiro acreditando na companhia. Sem mais.
2. Lucratividade
Como já anunciado, a empresa apresentou prejuízo no último trimestre divulgado, o que tem sido quase regra nos últimos anos. Vejam abaixo a tabela escondida no fim do release e a evolução da lucratividade da Springs ao longo dos últimos 11 anos:
* Acumulado nos últimos 12 meses partindo do 3T16, último resultado divulgado pela companhia.
Aqui, novamente, temos uma armadilha. Pelo gráfico é óbvio: a Springs vem perdendo valor. Porém, temos um indicador que pode enganar-nos e nos induzir a achar que se trata de uma pechincha: o P/VPa, que neste caso, está em aproximadamente 0,4.
É um bom número? Sim. Este número indica que a ação está sendo negociada a 0,4 vezes o seu patrimônio líquido, ou seu valor contábil. Porém, como já disse neste blog, este indicador por si só não quer dizer nada. De que adianta um grande patrimônio que não gere valor? O adepto ao buy and hold não pretende vender suas ações no curto prazo, portanto, uma empresa que não apresente resultados deve ser descartada, já que esta tende inexoravelmente ao fracasso em um horizonte mais longo.
Seguimos ao próximo tópico.
4. Dívida
Segundo o sábio, uma empresa que não deve não pode falir. Faz sentido. Sendo ou não verdade, uma coisa é certa: dívidas são como chifres: lidamos com eles, mas é sempre melhor que não existam.
No caso da Springs, a dívida está em patamares preocupantes, já acima do patrimônio líquido. Isto quer dizer que nem todo seu patrimônio seria suficiente para pagar os seus credores em última instância. Isto também quer dizer que grande parte dos lucros (caso existentes) serão corroídos no pagamento de despesas com juros.
Ainda penso em fazer uma abordagem mais detalhada sobre o que penso em relação às dívidas, mas faço o seguinte resumo: prefiro empresas sem dívidas e em seguida empresas com dívidas baixas, mas sei que existem empresas que utilizam a dívida de forma a gerar maiores retornos e aumentam significativamente o seu desempenho no longo prazo. A Springs não é uma dessas empresas. Outra: alavancar com capital de terceiros é uma faca de dois gumes; em tempos de crise, empresas que não devem geralmente performam melhor.
E finalizando, o gráfico da evolução da dívida da Springs ao longo dos anos:
* Acumulado nos últimos 12 meses partindo do 3T16, último resultado divulgado pela companhia.
Pois é: sei que o analista utilizou uma metáfora quando disse que a Springs será uma Ambev no longo prazo. Mas foi uma metáfora infeliz, já que a Ambev é boa não só pelo market share de aproximadamente 70%, mas pela solidez nos resultados, a dívida mais que controlada, o patrimônio sempre crescente e acima de tudo: a lucratividade que, desde que tenho notícia, nunca se apresentou negativa.
De fato, a Springs jamais será uma Ambev.
Pois bem. Eis que, lendo o Infomoney (sempre ele), deparo-me, por dois dias consecutivos, com as seguintes manchetes:
Os links para as reportagens completas estão aqui e aqui.
Esse é o tipo de texto que eu considero particularmente perigoso para o investidor em valor, adepto ao buy and hold, que almeja construir uma carteira de ações para o longo prazo. Digo isso porque logo nos títulos temos uma armadilha clássica, que desenvolve-se no decorrer dos textos, dando a entender que a alta recente no preço dos papéis possuem correlação com a situação da companhia, e pior, com seu futuro.
A Springs não é uma boa empresa e jamais será uma Ambev. Mas antes de justificar-me, deixem-me mostrar-lhes o tipo de coisa que eu não gosto de ler.
"(...) a empresa explicou que um motivo para a alta poderia ser o corte da Selic, mas segundo analistas esta disparada vai além apenas da queda dos juros. Em entrevista ao Infomoney, a diretora de Relações com Investidores da Springs, Alessandra Gadelha, falou um pouco sobre o momento atual da companhia e como o futuro pode ser ainda melhor.
Segundo ela a queda da taxa de juros contribui para a redução da despesa financeira da companhia e, consequentemente, para ampliação de seu resultado e de sua geração de caixa. No fim do terceiro trimestre, a dívida bruta atrelada ao CDI da Spring Global, somava aproximadamente R$ 600 milhões. "Assim, a redução de 1 ponto percentual da taxa de juros representa economia ou ganho de R$ 6 milhões por ano, equivalente a 25% do lucro realizado em 2015", explica.
(...) Hoje, a Springs Global perdeu tamanho, mas ainda é a maior das Américas, valendo cerca de R$ 200 milhões. "A única justificativa para isso é o total desconhecimento do mercado da sua existência, que se reflete na sua baixa liquidez", afirma Reis, completando que esta é uma ótima oportunidade para o investidor que busca ações para médio e longo prazo."
Perceberam? No primeiro trecho, uma mudança no cenário macroeconômico é apontada como força locomotora para o desempenho da companhia; no segundo, o tal gestor e blogueiro do Infomoney afirma que a empresa é uma ótima oportunidade para o médio e longo prazo. Pode ser? Sim, mas, indubitavelmente, o investidor comum não tem a menor condição de avaliá-la como promissora, já que o que o histórico da Springs a mostra como uma péssima empresa; ou por outra: comprar a Springs é apostar em um cavalo. Pode até dar certo, mas não é algo muito sensato.
Como tive o trabalho de analisá-la com um pouco mais de atenção, percebi que ela não passa nos filtros mais básicos para o investidor que almeje comprar boas empresas que mantenham ou aumentem seu desempenho ao longo do tempo. Sim, sei que existem aqueles que buscam por turnarounds, e que este poderia ser um caso de uma delas, porém, meu ponto é que a situação da Springs não é e nem foi boa em, pelo menos, nos últimos dez anos.
Sendo assim, vamos aos motivos pelos quais eu jamais compraria esta empresa e que impedem que ela se torne uma Ambev.
1. Falta de transparência nos relatórios
Li um bocado de relatórios da Springs e achei curioso o fato de que, assim como muitas outras empresas, para ela os releases não passam de meros panfletos publicitários. Explico.
Primeiro vamos ao que eu entendo por um release: um release deve ser utilizado pela empresa como um meio de dialogar francamente com o acionista apontando de forma objetiva os fatos mais relevantes do período. Esse ponto é fundamental, porque os fatos mais relevantes não necessariamente se referem às notícias mais positivas.
Pois bem. Logo de cara, na primeira página de seus releases, vemos, como padrão, um campo com os "destaques do desempenho da Springs", onde são colocadas as notícias mais positivas do período, onde deveriam ser colocados os fatos mais relevantes.
Outra: vejam a tabela que, também por via de regra, sempre nos é apresentada na primeira página:
Percebam que na tabela está constando apenas o lucro bruto da companhia. O que é o lucro bruto? Respondo: é o lucro que não importa. O que deveria estar na primeira página, impreterivelmente, é o lucro líquido do período, pois é este o lucro que realmente vale para o acionista. Neste caso (3T16), a empresa apresentou prejuízo, e isto é claramente escondido do acionista por todo o release, só aparecendo em uma tabela anexa no fim de todos os comentários.
Duvidam? Pois replico na totalidade o que está escrito no tópico "lucro".
"O lucro bruto totalizou R$ 162,3 milhões no 3T16, com margem bruta de 26,3%. O aumento da receita líquida foi superior ao do CPV, em termos absolutos, porém inferior, em termos relativos, proporcionando ampliação de 0,4% do lucro bruto, mas redução de 0,6 p.p. da margem bruta.
O resultado financeiro foi uma despesa de R$ 57,1 milhões no 3T16, versus despesa de R$ 28,1 milhões no 3T15, quando houve efeito positivo de R$ 21,6 milhões de variação cambial líquida, devido à desvalorização do Real no 3T15.
As despesas financeiras – juros e encargos – ampliaram em R$ 4,5 milhões, enquanto as despesas bancárias, impostos, descontos e outros reduziram em R$ 1,4 milhão. As receitas financeiras reduziram em R$ 1,5 milhão, apesar do maior montante de recursos aplicados no 3T16, pois houve aumento da sua parcela aplicada no exterior, com menores taxas de juros, quando comparadas às do Brasil.
O saldo das variações cambiais foi negativo em R$ 2,8 milhões no 3T16, refletindo a valorização do Real no trimestre na posição líquida de ativos em dólar, ante valor positivo de R$ 21,6 milhões no 3T15. Excluindo o resultado da variação cambial, houve uma melhora de R$ 10,0 milhões no resultado líquido da Companhia entre anos.
Assinamos, em julho de 2016, contrato de locação de 30 mil m2 do terreno de São Gonçalo do Amarante, equivalente a 3,6% da área total. O contrato de aluguel tem prazo de 20 anos, sendo renovável por mais 20 anos.
Vemos este contrato como o início da realização do valor potencial do ativo não operacional de São Gonçalo do Amarante. A chegada do primeiro varejista irá acelerar a negociação com outros interessados, além de tornar mais evidente seu valor de mercado."
Encerro: uma empresa que apresentou prejuízo no trimestre deve invariavelmente apresentar logo na primeira página uma justificativa ao acionista, que investe seu suado dinheiro acreditando na companhia. Sem mais.
2. Lucratividade
Como já anunciado, a empresa apresentou prejuízo no último trimestre divulgado, o que tem sido quase regra nos últimos anos. Vejam abaixo a tabela escondida no fim do release e a evolução da lucratividade da Springs ao longo dos últimos 11 anos:
* Acumulado nos últimos 12 meses partindo do 3T16, último resultado divulgado pela companhia.
É isso mesmo: a nova Ambev apresentou lucro em apenas dois dos últimos 11 anos.
Novamente insisto: pode até ser que ela venha a crescer de forma primorosa, mas, humildemente, me atenho aos resultados passados já que não posso prever o futuro. E o passado desta empresa é, para dizer o mínimo, terrível.
Pergunto: por que o investidor comum, com tanta empresa razoável/boa no mercado, vai inventar de comprar uma companhia com este passado? É muito mais simples comprar um negócio que já provou sua capacidade de gerar lucros: uma Ambev, por exemplo. A Springs não gerá valor ao acionista há anos, e isso é muito claro a qualquer um que analise-a apenas superficialmente. Será que não temos melhor alternativa?
3. Patrimônio
Não bastasse a ausência de lucros, a Springs perdeu cerca de 40% de seu patrimônio líquido nos últimos 11 anos. Segue o gráfico:
Aqui, novamente, temos uma armadilha. Pelo gráfico é óbvio: a Springs vem perdendo valor. Porém, temos um indicador que pode enganar-nos e nos induzir a achar que se trata de uma pechincha: o P/VPa, que neste caso, está em aproximadamente 0,4.
É um bom número? Sim. Este número indica que a ação está sendo negociada a 0,4 vezes o seu patrimônio líquido, ou seu valor contábil. Porém, como já disse neste blog, este indicador por si só não quer dizer nada. De que adianta um grande patrimônio que não gere valor? O adepto ao buy and hold não pretende vender suas ações no curto prazo, portanto, uma empresa que não apresente resultados deve ser descartada, já que esta tende inexoravelmente ao fracasso em um horizonte mais longo.
Seguimos ao próximo tópico.
4. Dívida
Segundo o sábio, uma empresa que não deve não pode falir. Faz sentido. Sendo ou não verdade, uma coisa é certa: dívidas são como chifres: lidamos com eles, mas é sempre melhor que não existam.
No caso da Springs, a dívida está em patamares preocupantes, já acima do patrimônio líquido. Isto quer dizer que nem todo seu patrimônio seria suficiente para pagar os seus credores em última instância. Isto também quer dizer que grande parte dos lucros (caso existentes) serão corroídos no pagamento de despesas com juros.
Ainda penso em fazer uma abordagem mais detalhada sobre o que penso em relação às dívidas, mas faço o seguinte resumo: prefiro empresas sem dívidas e em seguida empresas com dívidas baixas, mas sei que existem empresas que utilizam a dívida de forma a gerar maiores retornos e aumentam significativamente o seu desempenho no longo prazo. A Springs não é uma dessas empresas. Outra: alavancar com capital de terceiros é uma faca de dois gumes; em tempos de crise, empresas que não devem geralmente performam melhor.
E finalizando, o gráfico da evolução da dívida da Springs ao longo dos anos:
Pois é: sei que o analista utilizou uma metáfora quando disse que a Springs será uma Ambev no longo prazo. Mas foi uma metáfora infeliz, já que a Ambev é boa não só pelo market share de aproximadamente 70%, mas pela solidez nos resultados, a dívida mais que controlada, o patrimônio sempre crescente e acima de tudo: a lucratividade que, desde que tenho notícia, nunca se apresentou negativa.
De fato, a Springs jamais será uma Ambev.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
Entrevista com Barsi
Pois é... os mais céticos que esfreguem bem os olhos, pois o Infomoney novamente acertou em cheio. Nesta segunda, o famoso site brasileiro deu destaque a um bate-papo entre os leitores do site Suno Research e o gigante investidor brasileiro Luiz Barsi. Gostem ou não dele, é fato que o homem diz coisas bem sensatas, além de que sua própria trajetória já fala por si só. Confiram neste link.
O ponto alto da entrevista, ao meu ver, foi a parte em que, questionado sobre "se vale mais a pena investir na renda fixa", Barsi respondeu peremptoriamente "não, não vale a pena". Concorde-se ou não com isso, é alentador para o investidor em ações ler algo que distancia-se do uníssono coro em prol da renda fixa.
Quanto ao trecho polêmico da entrevista, em que Barsi afirma que análise gráfica é uma fantasia, novamente tendo a concordar, apesar de saber que existem pessoas que ganham dinheiro com isso. Minha opinião é simples: o comportamento humano, em nenhuma instância, é passível de previsão. Quem quer que tente sistematizar um set up afim de compreender a ação humana inevitavelmente falhará, pois a ação humana provém principalmente de motivações individuais e da contingência, fatores que simplesmente escapam a qualquer tipo de padrão.
O Barsi não é o meu guru e tampouco me espelho nele como investidor. Mas certamente é alguém que merece ser escutado com atenção.
Bom, por hoje é só.
Abraços!
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Fechamento - Dezembro/2016: R$ 64.466,41 (+R$ 1.408,13 ou +2%)
E vamos ao último post de acompanhamento da carteira no ano de 2016. Ano muito bom, visto que as metas de patrimônio e aportes foram batidas.
Quanto ao blog, tenho postado com frequência bem menor nos últimos meses e, infelizmente, creio que isso não irá mudar. Como já havia dito anteriormente, o blog não é prioridade em minha vida e tampouco quero rentabilizá-lo, ter um grande número de leitores ou algo do tipo. Somando-se a isso os recentes acontecimentos com outros amigos blogueiros, é demasiado desalentador se esforçar em trazer conteúdo novo ou elaborar posts de qualidade.
Sendo assim, o blog segue com aquilo que tem me sido útil: os fechamentos mensais. Seguem os números:
1- Evolução patrimonial
O patrimônio neste dezembro, apesar de uma rentabilidade negativa, atingiu sua maior marca histórica, de R$ 64.466, fechando o ano acima da meta de R$ 62.450. É interessante observar que cada vez mais o crescimento mensal vai tomando consistência e os aportes vão surtindo efeito, já que se trata de uma carteira jovem sem perspectiva de grandes valorizações no curto prazo.
Em 2016 a carteira dobrou, o que me deixou bastante satisfeito, visto que já estamos indo para o quarto ano de investimentos, ou seja, havia levado dois anos para juntar o que juntei este ano.
Abaixo, a evolução patrimonial em forma de tabela, com seus respectivos crescimento e percentual de valorização mensal:
Patrimônio Crescimento Porcentagem
ago/15 R$ 28.239,00 R$ - 0%
set/15 R$ 25.717,00 -R$ 2.522,00 -10%
out/15 R$ 30.574,00 R$ 4.857,00 16%
nov/15 R$ 31.093,90 R$ 519,90 2%
dez/15 R$ 31.161,00 R$ 67,10 0%
jan/16 R$ 32.931,50 R$ 1.770,50 5%
fev/16 R$ 36.189,50 R$ 3.258,00 9%
mar/16 R$ 38.674,00 R$ 2.484,50 6%
abr/16 R$ 43.872,81 R$ 5.198,81 12%
mai/16 R$ 44.558,01 R$ 685,20 2%
jun/16 R$ 47.703,08 R$ 3.145,06 7%
jul/16 R$ 50.950,69 R$ 3.247,61 6%
ago/16 R$ 55.074,42 R$ 4.123,73 7%
set/16 R$ 54.551,57 -R$ 522,85 -1%
out/16 R$ 64.219,69 R$ 9.668,12 15%
nov/16 R$ 63.058,28 -R$ 1.161,41 -2%
dez/16 R$ 64.466,41 R$ 1.408,13 2%
Rentabilidade mensal: -0,83%
Abraços!
Quanto ao blog, tenho postado com frequência bem menor nos últimos meses e, infelizmente, creio que isso não irá mudar. Como já havia dito anteriormente, o blog não é prioridade em minha vida e tampouco quero rentabilizá-lo, ter um grande número de leitores ou algo do tipo. Somando-se a isso os recentes acontecimentos com outros amigos blogueiros, é demasiado desalentador se esforçar em trazer conteúdo novo ou elaborar posts de qualidade.
Sendo assim, o blog segue com aquilo que tem me sido útil: os fechamentos mensais. Seguem os números:
1- Evolução patrimonial
Em 2016 a carteira dobrou, o que me deixou bastante satisfeito, visto que já estamos indo para o quarto ano de investimentos, ou seja, havia levado dois anos para juntar o que juntei este ano.
Abaixo, a evolução patrimonial em forma de tabela, com seus respectivos crescimento e percentual de valorização mensal:
Patrimônio Crescimento Porcentagem
ago/15 R$ 28.239,00 R$ - 0%
set/15 R$ 25.717,00 -R$ 2.522,00 -10%
out/15 R$ 30.574,00 R$ 4.857,00 16%
nov/15 R$ 31.093,90 R$ 519,90 2%
dez/15 R$ 31.161,00 R$ 67,10 0%
jan/16 R$ 32.931,50 R$ 1.770,50 5%
fev/16 R$ 36.189,50 R$ 3.258,00 9%
mar/16 R$ 38.674,00 R$ 2.484,50 6%
abr/16 R$ 43.872,81 R$ 5.198,81 12%
mai/16 R$ 44.558,01 R$ 685,20 2%
jun/16 R$ 47.703,08 R$ 3.145,06 7%
jul/16 R$ 50.950,69 R$ 3.247,61 6%
ago/16 R$ 55.074,42 R$ 4.123,73 7%
set/16 R$ 54.551,57 -R$ 522,85 -1%
out/16 R$ 64.219,69 R$ 9.668,12 15%
nov/16 R$ 63.058,28 -R$ 1.161,41 -2%
dez/16 R$ 64.466,41 R$ 1.408,13 2%
2- Comparativo de rentabilidades
A rentabilidade mensal atingiu -0,83% no mês, ligeiramente melhor que o Ibovespa, porém ainda abaixo do CDI. Por enquanto, a situação não muda, a carteira não se solidificou e não apresenta um resultado satisfatório frente aos índices de referência. Nada alarmante, visto que o tempo de amostragem ainda é muito pequeno.
Abaixo, os valores compilados de rentabilidade históricos. Lembrando, crescimento do patrimônio e rentabilidade não são sinônimos.
Rentabilidade anual: 15,95%
Rentabilidade histórica: 10,24%
3- Aportes mensais
Os aportes mensais fecharam com folga acima da meta, já batida desde novembro, devido a um aporte não esperado neste mês de dezembro. Algo a se comemorar, e diferente do que eu mesmo havia previsto, já que no último fechamento cogitei postergar o aporte de dezembro (onde já havia batido minha própria meta) afim de melhorar os números pro ano seguinte. Desnecessário, ainda bem.
Então, ficamos assim. Espero que este 2017 seja tão bom como 2016 para a carteira e para você, leitor.
Abraços!
Assinar:
Postagens (Atom)














