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terça-feira, 12 de julho de 2016

Reflexões [2]

I) Tenho sido levemente pressionado por amigos e familiares a trocar o meu carro. Digo levemente, pois se tratam apenas de comentários fortuitos que saem sem a intenção de me induzir a fazê-lo. É como o marido que diz à mulher "que bela atriz!" não tem a intenção de dizer "quem dera eu pudesse traçá-la!". Pois bem. Eu, a versão moderna do homem das cavernas, completo em 2016 o quinto ano com o mesmo carro. Meu carro, um popular 2010 com menos de 50 mil quilômetros rodados, também completa cinco anos junto ao seu único dono.

Longe de mim justificar-me exaltando os sentimentos que nutro pelo carango. Amor, garanto, não há. O que de fato ocorre é que meu velho companheiro sempre me atendeu muito bem. Econômico, discreto, com manutenção barata e que, para espanto geral, me leva aonde quer que eu deseje. 

Mas parece que causo certo incômodo ao não sequer externar uma mínima vontade de trocar o popular por um possante atual. Sabem como é... sou jovem, ganho relativamente bem para minha idade, já trabalho há muitos anos e possuo total condição de me locomover melhor. Aliás, como é possível que eu não tenha me cansado de olhar para o mesmo carro todos os dias? A que diabos destinei o meu salário dos últimos anos?

São meras questões retóricas. Aos olhos da modernidade, já sou um condenado.

II) Dialogando com um ex-funcionário recém-demitido da empresa:

— E aí, bicho, como está o trampo?

— O serviço está fraco... Complicado... Parece que essa crise não vai passar tão cedo. Ontem foram mais dois embora.

— Vish... Difícil, hein?!

— Pois é... Mas e você, já arrumou outro lugar?

— Hahaha, está louco?

— O que está fazendo então?

— Estou no seguro-desemprego, claro.

— E não está procurando nada?

— Eu não! Vai que eu encontro...

III) A Empiricus crava: o "renascimento do mercado brasileiro" está próximo. Segundo os economistas, estamos prestes a reviver outra avalanche monetária e o mercado irá se valorizar surpreendentemente. Lendo o texto divulgado na última semana, saltam aos nossos olhos valorizações exorbitantes na casa dos três dígitos aliadas da previsão de que estamos na iminência de vivenciá-las.

A questão que fica é: e se eles estiverem certos?

Bom, no meu caso não irá mudar muita coisa. Não comprarei os produtos nem as ações recomendadas pela empresa. Minha carteira irá se valorizar precocemente e ficará mais difícil encontrar boas empresas a um preço justo.

Caso estejam equivocados, também não mudará muita coisa. Nem para mim, que não moverei uma palha e continuarei aportando normalmente; nem para eles, que provavelmente nem darão justificativas a seus clientes —que já terão comprado seus produtos. Caso a tão sonhada alta ocorra daqui há cinco anos, será apenas uma prova maior da competência destes economistas, que previram a escalada dos preços com um tempo enorme de antecedência.

Não serei redundante a ponto de fazer propaganda para a Empiricus, mas é fato que seus economistas são competentes. Porém, o que torna seus relatórios particularmente complicados é ter de separar para toda linha o argumento bem embasado da propaganda, a verdade do sensacionalismo e a lógica das táticas de persuasão. 

No fim das contas, se o mercado subirá ou não pouco importa. Os néscios comprarão os produtos da Empiricus e, agindo assim, hora ou outra perderão dinheiro —como sempre perderam. Investir o próprio capital na opinião de terceiros é uma forma muito eficaz de dizer adeus à tranquilidade e, logo em seguida, ver evaporar suas economias.

12 comentários:

  1. I) Não abro mão de trocar de carro(AZERA) todo ano, a concessionária tem "compromisso de recompra", então sai bem "barato", e estou sempre com carro novo.

    II) Trabalhar é uma mer!#!#! quem em sã consciência, quer trabalhar?

    III) Todo mundo ganha e perde... Você PM acerta todas suas posições?

    Sempre ganhei grana seguindo recomendações da Empiricus, claro que eles se valem de vários artifícios para vender, faz parte do jogo.

    Abraço,
    ANÔN Ex-Pobre, depois que meu pai morreu fiquei RICO.

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    1. Caro anônimo,

      Vamos por partes. Primeiramente, te parabenizo pelo fato de que você possa se dar ao luxo de trocar de carro uma vez por ano. Mas este é um luxo que você se dá o direito; financeiramente, é uma opção que não faz o menor sentido para quem pensa em acumular patrimônio.

      Segundo, trabalhar é péssimo, sei disso tão bem quanto qualquer um, e é exatamente por isto que existe este blog. Ao detestar o trabalho, possuo duas opções: ou conquisto minha liberdade financeira (que é nada mais que me dar ao luxo de não precisar trabalhar), ou vivo às custas de alguém —claro, eliminando uma terceira opção que seria não trabalhar e alojar-me debaixo de uma ponte. Eu, assim como os amigos da blogosfera, escolhi abdicar-me dos prazeres que meu dinheiro podem comprar hoje para comprar minha liberdade amanhã; mas é um fato que a grande maioria dos homens (e principalmente brasileiros) não pensam assim. Como dizia Bastiat, é uma tendência natural do homem evitar o trabalho e utilizar de quaisquer meios que possua para isso; o seguro-desemprego é um excelente exemplo. A crítica é que este definitivamente não é um meio digno.

      Finalmente, é óbvio que já cometi erros e continuarei cometendo. Porém, aprendo com eles, e perco dinheiro com minhas próprias decisões. Se você nunca perdeu dinheiro seguindo as recomendações da Empiricus, ótimo, mas você é um caso a parte, pois muitos já perderam. E veja: existe uma diferença absurda entre alocar o próprio capital em um fundo de investimentos administrado por terceiros (que segue uma estratégia pré-definida que qualquer um pode entender) e comprar a ação que os economistas da Empiricus dizem que irá subir. E se ela cair, o que irá fazer: vender? Segurar e aguardar mais um pouco a subida? E se ela ainda não subir? Irá enviar um e-mail para a Empiricus? Qual foi seu parâmetro de compra e como você irá verificar se não tomou uma decisão incorreta?

      Perceba que, neste caso, a perda de dinheiro não torna possível evoluir como investidor. Ou melhor: a única evolução possível para alguém que investe seguindo uma dica é decidir-se jamais seguir dicas novamente.

      Abraços!

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  2. Também sofro essa "pressão", mas no meu caso é porque não tenho carro. Estou bem sem carro, por mais que a maioria das pessoas não consigam compreender isso.

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    1. Madruga,

      Seu caso é ainda pior, rs. Impressionante o interesse natural das pessoas por nossas próprias escolhas.

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  3. Se eu fosse vc trocava de carro...
    por um Uber, rs.
    A galera vai endoidar.

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  4. Olá PM,

    Passo pelo mesmo caso em relação ao carro, talvez menos por alguns saberem de minhas investidas na construção, mas sempre me olham com um olhar de “anda com carro de pedreiro” kkk.

    Não tenho interesse e nem pretendo trocar meu carro também não, me atende bem, é econômico, serve para as obras, tem ar e direção, quero mais o que?

    Foda que as pessoas veem isto e devem pensar que você não é bem sucedido, pois não anda de carro zero potente! É mole?

    Ultimamente o que me dá prazer mesmo não são estes bens materiais, e sim entrar na minha conta na corretora e ver pingando meus aluguéis, e eu poder reinvestir, e ver meus juros dos empréstimos caindo em conta, e meu salário sendo reinvestido ... Daqui a 5, 10 anos, vão me ver dizendo “eu me aposentei, sou livre financeiramente” aí sim vão entender.

    Fujo de análises de analistas, eu mesmo faço as minhas.

    O que lembro desta Empiricús (que nomezinho né?) é que fazem marketing bem agressivo kkk.

    Grande abraço PM e seguiremos na luta!

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    Respostas
    1. VDC,

      Compartilhamos dos mesmos princípios. Mas somos minoria, claro. E pode ter certeza: somos vistos como malsucedidos. Não importa se parcelados em duzentas vezes, pessoas de sucesso devem portar carros potentes.

      É exatamente por isto que tão poucos podem dizer-se verdadeiramente de sucesso.

      Quanto as análises, é como eu disse em um comentário acima. O melhor jeito de jamais evoluir como investidor é investir seguindo dicas de terceiros. Também, assim como você, sempre fiz minhas próprias análises, mesmo que muitas vezes repletas de falhas, e evoluí. Para quem busca retornos acima da renda fixa, acredito ser este o caminho, ou investir em algum ETF, que também é uma ótima opção.

      Seguimos a luta!

      Abraços.

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  5. Caros,
    Eu tenho lido bastante sobre investimentos, porem continuo perdido.
    Tenho cerca de 300 mil reias (que estao em dolares - morei alguns anos no exterior e ralando muito consegui juntar esta grana - e eu preciso trocar antes que o dolar se desvalorize mais ainda, pois ja'perdi quase 100 mil pq nao troquei tempos atras)...
    Eu gostaria de investir este dinheiro da maneira mais inteligente possivel pois estou sem trabalhar e preciso de uma renda.
    Poderia me ajudar com dicas?
    Muito obrigado.

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    1. Amigo,

      Tendo em vista sua situação, acredito que você deve adotar uma postura cautelosa e conservadora em seu investimento. Eu não posso escolher por você, pois esta é uma decisão pessoal e somente você irá saber o que é melhor para si, mas sugiro que avalie as LCI's, LCA's, CDB e, principalmente, o tesouro direto.

      No site do tesouro você pode fazer diversas simulações com diferentes situações de aplicação, dê uma olhada e veja qual te atende melhor. Ainda no site do tesouro, sugiro que procure o campo "Perguntas frequentes" e leia-o inteiro. A renda fixa no Brasil está com taxas realmente muito boas, e aconselho-te a ficar longe da renda variável.

      Abraços.

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  6. Pretenso Milionário,

    Cai de paraquedas no seu blog e gostei do que li. Texto fluido, inteligente, bons argumentos, atenção aos comentários...

    Vou colocá-lo no meu feedly. Espero os próximos textos.

    Parabéns!

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    1. Obrigado, André. Fico feliz que tenha gostado.

      Abraços.

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