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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Reflexões [3]

I) Os brasileiros ficaram deslumbrados com a abertura das Olimpíadas. Bem, ao menos é essa a impressão que tenho após ler dezenas de manchetes e comentários elogiosos. Confesso: não vi. E por pura falta de interesse, nada mais. Eu sequer sabia a data e o horário que iria acontecer.

Para mim, algo normal. Afinal, não vejo a abertura de nada, não acompanho nenhum esporte olímpico e sequer assisto televisão. Mas basta um comentário desinteressado sobre o assunto para que olhares de desprezo surjam ao redor da mesa.

Explico: em um almoço com alguns colegas de trabalho, mencionei que não havia assistido a abertura, e que achava aquilo tudo um grande escárnio para com o brasileiro que paga impostos. Afinal, estamos em meio a uma crise avassaladora, com milhões de desempregados sem perspectivas de retorno, e exibimos ao mundo um festival esportivo que irá literalmente incinerar toneladas de dinheiro.

Pronto. Foi dizê-lo e o silêncio instalou-se na mesa. Um silêncio entre aspas, pois os olhares diziam tudo.

Desagradável. Mas é sempre assim quando a realidade bate à porta. E o sucesso dos jogos não irá de forma alguma justificar tamanho dispêndio de dinheiro. A abertura das Olimpíadas é o brasileiro que não trabalha, alimenta mal os filhos, não incentiva a sua educação e ainda assim continua a tomar sua cerveja.

II) Em outro almoço, ouço dois adultos conversando, entre uma e outra garfada:

— Cara, vindo para o trabalho eu peguei dois pokémons. Vi que tem mais um ali na igreja, e outro na praça.

— Vamos lá depois daqui?

— Vamos. Quantos você já pegou?

— Oitenta e seis. Mas tem gente bem melhor do que eu. O meu problema tá sendo a patroa, que fica no meu pé e me atrapalha a jogar.

— É... mas ainda assim você está bem.

— Sábado de tarde eu vou para o centro, não tem comparação o tanto de pokémon que aparece por lá. Por isso quem mora lá perto evolui muito rápido.

— Ué, você não ia no churrasco do pessoal da empresa?

— Prioridades né, meu caro?! Prioridades...

III) E o Ibovespa não para de subir. Fico aqui a pensar: no início do ano, estávamos na casa dos 40 mil pontos, com perspectivas das mais pessimistas para este ano e o próximo. Os economistas, em uníssono, alardeavam a chegada da maior crise de nossa história, prevendo uma possibilidade de recuperação apenas ao final de 2017 ou depois.

Agora, passados poucos meses, temos o Ibovespa marcando 57 mil pontos, uma valorização que supera os 40% em relação a janeiro. Pergunto: onde se deu a essencial mudança neste tempo, que por uma infelicidade acabou me escapando?

Resposta: não se deu mudança nenhuma. Continuamos na crise, porém, agora com um mercado melhor humorado.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Fechamento - Julho/2016: R$ 50.950,69 (+6,84%)

Mês turbulento. Para mim, ao menos; na bolsa foi só alegria, com mais uma subida vertiginosa do Ibovespa.

De início, algumas justificativas aos leitores: fiquei ausente de praticamente tudo após a primeira semana deste último mês, tendo um gasto inesperado que impediu-me de aportar, além de diversos problemas que impediram-me de escrever e acompanhar os outros blogs. Enfim, foi um mês complicado, mas fico feliz que passou e estou bem novamente.

Neste julho o Ibovespa obteve alta de 11%, um número expressivo, e novamente performou acima da carteira. Tenho achado engraçado essa sequência de subidas, já que as mesmas não se justificam pelos resultados das empresas ou melhora no ambiente de negócios. O desemprego continua altíssimo, as empresas continuam sofrendo e o país inteiro está endividado. Se fosse arriscar uma previsão, diria que a bolha da inadimplência ainda não estourou e a situação geral da população tende a piorar ainda mais, já que não há perspectiva de um aquecimento no mercado que permita reverter este cenário de demissões e desemprego.

Sendo assim, vamos aos resultados, seguidos de breves comentários:

Rentabilidade mensal: 6,84%
Rentabilidade anual: 16,60%
Rentabilidade histórica: 9,38%

A rentabilidade da carteira atingiu 7,48%, lembrando que esta rentabilidade apenas considera minha carteira de ações, excluindo minhas aplicações com empréstimos. Foi um bom número, e serviu-me de alívio por fazer meu patrimônio subir mesmo em um mês sem aportes.

1- Evolução patrimonial



Como pode-se observar, continuo perseguindo a meta de patrimônio e o plano segue firme, passando por cima das adversidades. Neste mês ultrapassei o marco dos R$ 50 mil, o que me deixa bastante satisfeito, apesar de saber que o caminho ainda será longo e duro. De fato, posso ver que evoluí as custas de meu próprio esforço e isso é muito gratificante. 

2- Comparativo de rentabilidades


A carteira ainda performa abaixo dos dois índices de referência. É muito cedo para tirar qualquer conclusão, mas é um fato que este resultado pouco me preocupa.

3- Aportes mensais


Como já mencionado, está aí: aportes zero. É a segunda vez acontece no ano e, isto sim, me incomoda bastante. Da primeira vez, ocorreu devido a gastos pontuais que optei —como sempre opto— por pagar à vista. Como disse neste blog, poderia ter realizado em março um pequeno aporte, mas preferi aumentar o aporte de abril, que não pôde ser percebido no gráfico pelo fato de que ao final deste mês recebi bastante dividendos —que foram descontados do valor do aporte já realizado.

O ponto é que, para pequenas carteiras, os aportes são fundamentais. Deve-se buscar aportar o mais forte possível no início e qualquer valor que consiga-se aportar a mais faz bastante diferença. Com o tempo, como sabemos, a rentabilidade tende a tomar as rédeas da carteira e torna-se gradualmente mais importante que os aportes. Ainda não é o meu caso.

E que venha agosto!

terça-feira, 12 de julho de 2016

Reflexões [2]

I) Tenho sido levemente pressionado por amigos e familiares a trocar o meu carro. Digo levemente, pois se tratam apenas de comentários fortuitos que saem sem a intenção de me induzir a fazê-lo. É como o marido que diz à mulher "que bela atriz!" não tem a intenção de dizer "quem dera eu pudesse traçá-la!". Pois bem. Eu, a versão moderna do homem das cavernas, completo em 2016 o quinto ano com o mesmo carro. Meu carro, um popular 2010 com menos de 50 mil quilômetros rodados, também completa cinco anos junto ao seu único dono.

Longe de mim justificar-me exaltando os sentimentos que nutro pelo carango. Amor, garanto, não há. O que de fato ocorre é que meu velho companheiro sempre me atendeu muito bem. Econômico, discreto, com manutenção barata e que, para espanto geral, me leva aonde quer que eu deseje. 

Mas parece que causo certo incômodo ao não sequer externar uma mínima vontade de trocar o popular por um possante atual. Sabem como é... sou jovem, ganho relativamente bem para minha idade, já trabalho há muitos anos e possuo total condição de me locomover melhor. Aliás, como é possível que eu não tenha me cansado de olhar para o mesmo carro todos os dias? A que diabos destinei o meu salário dos últimos anos?

São meras questões retóricas. Aos olhos da modernidade, já sou um condenado.

II) Dialogando com um ex-funcionário recém-demitido da empresa:

— E aí, bicho, como está o trampo?

— O serviço está fraco... Complicado... Parece que essa crise não vai passar tão cedo. Ontem foram mais dois embora.

— Vish... Difícil, hein?!

— Pois é... Mas e você, já arrumou outro lugar?

— Hahaha, está louco?

— O que está fazendo então?

— Estou no seguro-desemprego, claro.

— E não está procurando nada?

— Eu não! Vai que eu encontro...

III) A Empiricus crava: o "renascimento do mercado brasileiro" está próximo. Segundo os economistas, estamos prestes a reviver outra avalanche monetária e o mercado irá se valorizar surpreendentemente. Lendo o texto divulgado na última semana, saltam aos nossos olhos valorizações exorbitantes na casa dos três dígitos aliadas da previsão de que estamos na iminência de vivenciá-las.

A questão que fica é: e se eles estiverem certos?

Bom, no meu caso não irá mudar muita coisa. Não comprarei os produtos nem as ações recomendadas pela empresa. Minha carteira irá se valorizar precocemente e ficará mais difícil encontrar boas empresas a um preço justo.

Caso estejam equivocados, também não mudará muita coisa. Nem para mim, que não moverei uma palha e continuarei aportando normalmente; nem para eles, que provavelmente nem darão justificativas a seus clientes —que já terão comprado seus produtos. Caso a tão sonhada alta ocorra daqui há cinco anos, será apenas uma prova maior da competência destes economistas, que previram a escalada dos preços com um tempo enorme de antecedência.

Não serei redundante a ponto de fazer propaganda para a Empiricus, mas é fato que seus economistas são competentes. Porém, o que torna seus relatórios particularmente complicados é ter de separar para toda linha o argumento bem embasado da propaganda, a verdade do sensacionalismo e a lógica das táticas de persuasão. 

No fim das contas, se o mercado subirá ou não pouco importa. Os néscios comprarão os produtos da Empiricus e, agindo assim, hora ou outra perderão dinheiro —como sempre perderam. Investir o próprio capital na opinião de terceiros é uma forma muito eficaz de dizer adeus à tranquilidade e, logo em seguida, ver evaporar suas economias.

sábado, 2 de julho de 2016

Fechamento - Junho/2016: R$ 47.703,08 (+1,38%)

Seguindo o acompanhamento da carteira, desta vez em um post mais rápido que o de costume.

Neste mês de junho a carteira desempenhou bem abaixo do índice de referência, o Ibovespa, porém, acima da meta estipulada (1%).

Conforme já havia sido previsto, os aportes vieram acima do habitual, principalmente devido ao recebimento de dividendos em meados de maio que, apesar de contabilizados em maio, só vieram efetivamente a ser aportados em junho.

No mais, vamos aos números:

Rentabilidade mensal: 1,38%
Rentabilidade anual: 9,12%
Rentabilidade histórica: 2,38%

Em seguida, os gráficos de evolução patrimonial, o comparativo de rentabilidades e o controle de aportes mensais:

1- Evolução patrimonial



2- Comparativo de rentabilidades



3- Aportes mensais



terça-feira, 28 de junho de 2016

Análise intrínseca e análise relativa

Um dos livros que mais marcaram minha trajetória de estudos do mercado foi Valuation - Como avaliar empresas e escolher as melhores ações, de Aswath Damodaran. Neste livro o autor explora a abordagem de valor oferecendo ao leitor duas metodologias de análise de um ativo: a análise instrínseca e a análise relativa.

Recentemente publiquei uma entrevista concedida por ele ao Infomoney, o que me motivou revirar minhas anotações e resgatar seu livro para escrever este artigo, comentando brevemente seus métodos. Então, vamos lá.


Primeiramente, algumas explicações. A análise de valor aplica-se partindo do princípio de que o mercado é um mau precificador de ativos a curto prazo, por isto, sempre encontraremos discrepâncias entre valor e preço de uma ação, que podem permitir-nos comprar uma empresa por um preço inferior ao que ela realmente vale. Por esta abordagem, consideramos que os fatores que influenciam o preço de um ativo a curto prazo (bom-humor dos investidores, euforia do mercado, noticiário econômico...) pouco se relacionam com o verdadeiro valor de uma empresa, por isso, é natural que os preços apresentem disparidades, muitas vezes irracionais. Também, por este método admite-se que o mercado comete erros pontuais, porém acertam na média e com o tempo; sendo assim, uma empresa sub ou sobreavaliada tenderá a ter seu preço próximo ao seu valor no longo prazo. 


Outro ponto importante é: a análise de valor não é algo trivial, e para muitos investidores —seja por falta de tempo, inclinação ou interesse— ela simplesmente não é indicada, pois toma tempo e envolve bastantes variáveis. Portanto, o livro oferece ferramentas para aqueles que optam por se aventurar e avaliar empresas por conta própria.


Por último, gostaria de deixar bem claro que, obviamente, toda análise sempre será imperfeita. Qualquer método que venhamos a utilizar deverá ser usado apenas como uma ferramenta auxiliar à nossa análise, jamais devemos tomar decisões de compra ou venda baseando-se apenas em métodos de precificação, isto é uma estupidez. Porém, precificar ativos pode ser muito útil, pois apesar de não conseguirmos medir precisamente o valor de uma empresa, facilmente visualizamos os casos de empresas extremamente sobreavaliadas ou subavaliadas, e normalmente são nestas situações que poderemos encontrar grandes oportunidades de investimento.


Sendo assim, neste artigo pretendo apresentar brevemente ao leitor a análise intrínseca, e explorar um pouco mais a análise relativa.


Análise intrínseca

A análise intrínseca parte do princípio de que o valor de um ativo é determinado pelo fluxo de caixa que este ele será capaz de gerar no futuro e pela incerteza relacionada a esta previsão.

O método de Fluxo de Caixa Descontado (em inglês, Discounted Cash Flow, ou DCF), recomendado pelo autor para a análise intrínseca, relaciona o valor de uma empresa ao valor presente de seus fluxos de caixa futuros esperados, descontados a uma taxa que reflete o risco atrelado a estes fluxos. Por meio desta abordagem, o que se determina é a capacidade de geração de caixa proveniente das operações normais da empresa, ou seja, seu potencial de geração de lucro através de suas atividades operacionais.


Usando o DCF chegamos ao valor justo de uma empresa e, comparando com seu preço atual, deduzimos se ela está cara ou barata.


Esta metodologia aplica-se para uma grande gama de empresas, principalmente as de crescimento e crescimento moderado, onde se é possível fazer alguma estimativa razoável de sua geração de caixa futura. Porém, para algumas classes de empresas, como empresas de dividendos ou empresas cíclicas, este método é menos eficaz. 

A grande chave deste modelo é a determinação da taxa de crescimento futuro da empresa, e a aproximação desta estimativa ao valor real é algo que exige cautela e experiência. No livro, Damodaran aborda em detalhes o cálculo e nos passa vários artifícios que podemos usar para fazer uma análise mais precisa.


A título de curiosidade, existem diversos outros métodos de cálculo de análise intrínseca, como o dividend discount model (DDM), ou a famosa fórmula de Graham. Esta análise busca, basicamente, verificar a margem de segurança que o investidor possuirá investindo na empresa pelo preço atual. Esta margem é calculada dividindo o valor encontrado no método de precificação pelo preço atual do ativo. Cabe ao investidor escolher o modelo que mais lhe agrada. No meu caso, o modelo que mais gosto é de fato o DCF, que é abordado neste livro (lembrando que não é para todas empresas que ele se aplica).


Como disse, não irei me alongar nesta análise, pois a internet já possui diversos artigos explicando a utilização deste método. O foco aqui será a próxima análise, muito pouco utilizada, apesar de sua grande utilidade: a análise relativa.


Análise relativa

Enquanto a análise intrínseca estabelece um preço fixo para uma empresa, a análise relativa a avalia com base em como empresas semelhantes são precificadas no mercado. A análise relativa encontra empresas comparáveis, ajusta seus preços a uma variável comum e os compara, analisando o que justificará —ou não— a disparidade entre suas precificações.

A grande vantagem da análise relativa é a facilidade em obter-se os dados necessários e a simplicidade em manipular os múltiplos. Os indicadores que utilizamos deverão ser atrelados ao preço e baseiam-se em dados passados, como P/L (preço/lucro), P/VPa (preço/valor patrimonial), P/V (preço/vendas), P/EBITDA (preço/EBITDA) etc.; com destaque para o primeiro, em que sua companion variable é exatamente o crescimento esperado. Resumindo: há uma incompatibilidade quando encontramos empresas com P/L baixos e taxas de crescimento esperado altas, ou seja, provavelmente estamos diante de uma empresa subavaliada.


Vamos a um exemplo, aplicando-se a análise relativa no setor de madeira e papel. Abaixo estão os respectivos valores de P/L e LPA ajustados aos últimos 12 meses das empresas do setor que obtiveram algum lucro, além do preço das mesmas no momento em que escrevo. Os dados foram retirados do site do Bastter e do EXAME.



P/L LPA Preço
Eucatex 29,44 R$ 0,14  R$          4,08
Fibria 37,94 R$ 0,64  R$        24,47
Suzano 13,45 R$ 0,89  R$        11,90
Klabin 55,60 R$ 0,12  R$          6,68
Duratex 60,42 R$ 0,14  R$          8,43
Média 39,37

De cara, o que percebemos? A Suzano é uma empresa que está barata em relação ao setor. Aí vem a grande pergunta: por quê? Mas antes de mostrar-lhes as alternativas que temos, quero abordar outra questão.


Tive de analisar inúmeros setores da bolsa para buscar estes dados e não encontrei atualmente nenhum exemplo de empresa extremamente sobreavaliada. Alguns motivos justificam: estamos claramente em um mercado de baixa, onde praticamente tudo está barato; grande parte das empresas —triste dizer— apresentaram prejuízos nos últimos doze meses, o que faz com que seu P/L fique negativo e não nos sirva para a análise.


Sendo assim, quero simular uma situação: lembro-me de ver há pouco tempo atrás, em 2015, a Lojas Americanas com um absurdo P/L de 245. Quando isto acontece, e é muito comum em mercados de alta, nossos dados acabam completamente distorcidos. Uma observação: nada justifica um P/L desta natureza. Quando uma empresa é negociada por 245 vezes seus lucros significa que o investidor que comprá-la neste preço terá o retorno de seu investimento em 245 anos, caso a empresa mantenha sua lucratividade por este tempo. Obviamente, ninguém tem este tempo todo. Mas vamos ver o que aconteceria se a Lojas Americanas ainda estivesse com este P/L —ela apresentou prejuízos nos últimos 12 meses— e integrasse o setor de madeira e papel.



P/L LPA Preço
Eucatex 29,44 R$ 0,14  R$          4,08
Fibria 37,94 R$ 0,64  R$        24,47
Suzano 13,45 R$ 0,89  R$        11,90
Klabin 55,60 R$ 0,12  R$          6,68
Duratex 60,42 R$ 0,14  R$          8,43
Lojas Americanas 245,00 -  - 
Média 73,64

A média do setor, que era 39,37, passaria para 73,64, o que comprometeria nossa análise, pois todas as empresas do setor estariam abaixo da média, com exceção da Lojas Americanas. Por isto, nestas situações devemos utilizar a mediana, que nada mais é que a média descartando-se os extremos encontrados. Neste caso, eliminaríamos o 245,00 da conta e chegaríamos a uma média que faz muito mais sentido para o setor. Este ponto é muito importante.


Agora, vamos a outro exemplo: aplicaremos novamente a análise relativa, desta vez para o setor de varejo, setor, aliás, com ótimas empresas. Abaixo estão os respectivos valores de P/L e LPA ajustados aos últimos 12 meses das empresas do setor que obtiveram algum lucro, além do preço das mesmas no momento em que escrevo:



P/L  LPA   Preço 
Arezzo 20,27  R$      1,32  R$        26,75
Lojas Renner 25,58  R$     0,90  R$        22,97
Grazziotin 5,87  R$      2,15  R$        12,62
Guararapes 12,44  R$     4,42  R$       55,00
Média 16,04

Aqui, temos duas empresas acima da média e duas abaixo. Novamente, nos vem a pergunta: o que justifica tais discrepâncias? Damodaran nos oferece três possíveis justificativas: diferenças entre crescimento, risco e geração de caixa. 


Vejamos a Guararapes: esta empresa possui uma menor perspectiva de crescimento, um maior risco ou menor capacidade de geração de caixa em relação a média do setor que justifique seu menor P/L?


Caso o investidor não consiga responder a questão acima e prefira se embasar em números, a análise relativa é interessante por permitir, de maneira bem simples, que analisemos a projeção futura destes fatores. Mostro-lhes como.


Para verificar, por exemplo, se a perspectiva de crescimento justifica a sub ou sobreavaliação de uma empresa, podemos simplesmente dividir o P/L sobre a taxa de crescimento esperada, chegando ao P/L/C. A título de demonstração, colocarei taxas de crescimento esperadas aleatórias para todas as empresas, porque, afinal, estamos atravessando a maior crise de nossa história, ficando difícil desenhar um cenário de crescimento de lucratividade para qualquer setor. Nos últimos doze meses, apenas a Grazziotin das empresas listadas obteve crescimento nos lucros, e de míseros 2%. Mas voltando, neste cenário hipotético, ficaria assim:



P/L  LPA   Preço  Crescimento       esperado P/L/C
Arezzo 20,27  R$      1,32  R$        26,75       5,00% 4,05
Lojas Renner 25,58  R$     0,90  R$        22,97      10,00% 2,56
Grazziotin 5,87  R$      2,15  R$        12,62       5,00% 1,17
Guararapes 12,44  R$     4,42  R$       55,00       5,00% 2,49
Média 16,04 2,57


Vejam como a situação mudou. Neste cenário desenhado, a Renner, que era a empresa mais cara na primeira triagem, agora se apresenta próxima à média do setor. A Arezzo, que estava ligeiramente acima da média, agora é definitivamente a mais cara. A Grazziotin, neste cenário em que mantém seu crescimento em 5%, continuaria sendo a mais barata do setor. O que isso quer-nos dizer? Duas coisas:


1) Empresas que a princípio são tidas como caras podem compensar seu preço em resultados.


2) Empresas que a princípio estão com seu preço acompanhando a média do setor podem, na verdade, estar muito mais caras do que todas, a depender do que se espera de seus resultados.


Além disto, Damodaran ainda oferece uma abordagem estatística para aqueles que gostariam de relacionar mais de uma variável à sua análise. Para estes, ele mostra como fazer uma regressão múltipla em que associa uma variável dependente (o P/L, por exemplo) com duas ou mais variáveis independentes (como o crescimento ou risco). Aos interessados, vejam exemplos de dois estudos brasileiros feitos para em cima dos setores de energia elétrica e construção civil. Os links estão aqui e aqui. Não é algo simples, portanto não vou me alongar neste ponto.


A análise relativa, de fato, é uma ferramenta muito útil na análise de empresas. Podemos facilmente identificar aquelas ações que estão extremamente fora da média, e através dela temos uma visão bastante ampla do setor em que iremos nos inserir. Porém, como todo método, apresenta pontos fracos e, ao meu ver, o principal neste caso é o fato de toda a análise depender demasiadamente de dados fornecidos pelo mercado que, como já mencionei, considero um mau precificador.

Para finalizar, deixo as palavras do autor: "a atratividade dos indicadores é que são simples e é fácil de relacioná-los. Podem ser utilizados para obter estimativas de valor com rapidez, para empresas e ativos, e são especialmente úteis quando há um grande número de empresas comparáveis. Porém, podem ser facilmente manipulados e usados incorretamente, além de permitirem a inclusão de erros que o mercado pode estar cometendo na avaliação das empresas comparáveis."


Para o investidor cauteloso é uma ferramenta que, sem dúvida, pode agregar bastante.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Oi, uma empresa que abusou do direito de errar


A Oi entrou com pedido de recuperação judicial nesta segunda (20). A empresa está com graves dificuldades para honrar suas dívidas, que já chegam a mais de R$ 65 bilhões. Os problemas incluem o descumprimento de metas de qualidade, universalização e ampliação do acesso aos serviços de telecomunicação. A notícia completa está aqui.

"Considerando os desafios decorrentes da situação econômico-financeira das Empresas Oi à luz do cronograma de vencimento de suas dívidas financeiras, ameaças ao caixa das Empresas Oi representadas por iminentes penhoras ou bloqueios em processos judiciais, e tendo em vista a urgência na adoção de medidas de proteção das Empresas Oi, a Companhia julgou que a apresentação do pedido de recuperação judicial seria a medida mais adequada", diz o comunicado assinado por Flavio Nicolay Guimarães, diretor de Finanças e de Relações com Investidores da Oi.

Segundo o comunicado, só assim a companhia conseguirá preservar a continuidade da oferta de serviços de qualidade a seus clientes dentro dos compromissos assumidos com a Anatel, preservar o valor da empresa, manter a continuidade de seu negócio e proteger o caixa do grupo.

A triste situação em que esta empresa se meteu, infelizmente, era facilmente previsível. Chega a ser difícil elencar a quantidade de besteiras que a administração da Oi cometeu, mas acho que o grande ponto de inflexão aconteceu quando Lula, então presidente,  alterou a Lei Geral de Telecomunicações para permitir que a Telemar comprasse a Brasil Telecom, com financiamento do BNDES. Segundo o ex-presidente, o país precisava de uma gigante na telefonia. E é óbvio que não precisava, isso não faz o menor sentido.

A partir daí, a Oi traçou uma estratégia com alto potencial explosivo: um aumento agressivo de seu capital somado de estratégias bastante exóticas no trato com seu negócio.

Vejamos um exemplo emblemático: no ano de 2012, a empresa se apresentava com um P/L de aproximadamente 9 e se gabava do posto de maior pagadora de dividendos do setor, chegando a pagar inclusive dividendos maiores que o lucro líquido atingido no final do exercício. Como assim?

No final deste ano, a Oi apresentou aos seus acionistas um aumento de aproximadamente quatro vezes seu endividamento total, para, dentre outras coisas, garantir o pagamento de altas taxas de dividendos. Pouco tempo depois, após anunciar um novo empréstimo, Alex Zornig, diretor financeiro da companhia, disse o seguinte: "A política de remuneração dos acionistas que foi anunciada depende das condições financeiras da companhia e é um pilar importante na governança corporativa, uma vez que proporciona previsibilidade ao mercado." Ou seja, a empresa continuaria pagando proventos aos seus acionistas, mesmo que para isto tivesse de pegar emprestado capital de terceiros. Faz algum sentido? É claro que não, e era fácil saber que uma política deste tipo resultaria em fracasso.

O que são dividendos? Dividendos são parte do lucro de uma empresa, que é destinada diretamente aos acionistas ao invés de ser reinvestida no negócio. Repetindo: dividendos são parte do lucro da empresa. Se a empresa não lucra, não faz o menor sentido distribuir dividendos. Mas para a Oi fazia, pois só assim poderia apresentar a seus acionistas a manutenção do posto de maior pagadora do setor. Mas não por muito tempo. Os resultados que se sucederam agravaram ainda mais sua situação: uma fusão asinina com a Portugal Telecom, um aumento vertiginoso de sua dívida, e claro, pois eles sempre chegam em péssimas gestões: os prejuízos.

E assim a Oi chegou a este triste fim. O juiz irá analisar o pedido da empresa e decidir se autoriza ou não a recuperação. Se não autorizar, ela terá de decretar falência. Caso autorize, há 60 dias para que a Oi apresente um plano de recuperação.

Lamentável, mas previsível.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Entrevista com Aswath Damodaran

Nesta segunda-feira, o Infomoney publicou uma entrevista concedida por Aswath Damodaran, professor da Stern School of Business e respeitadíssimo acadêmico (sim, o Infomoney de vez em quando dá uma bola dentro). Damodaran também é autor de uma penca de livros. Eu, particularmente, li Valuation - Como Avaliar Empresas e Escolher As Melhores Ações, e recomendo fortemente.

Primeiramente, uma nota rápida sobre o livro citado: é de nível intermediário/avançado e, por mais que tente adotar uma abordagem didática, é de difícil leitura para não acostumados com balanços e relatórios financeiros. Para os que já possuem alguma experiência, é um livro que pode agregar muito, pois o autor aborda de uma forma bem interessante diversos métodos de precificação para ações. Seu detalhamento das análises intrínseca e relativa certamente ilumina a difícil tarefa que é precificar um ativo.

Voltando, Damodaran mostrou um prognóstico otimista para aqueles que realizam investimentos no longo prazo, e tocou em alguns pontos interessantes sobre quais empresas poderão trazer bons retornos no futuro. 

Para os interessados, a entrevista completa pode ser lida aqui.

Abaixo, um conselho dado pelo professor para os investidores brasileiros:

"Se você for um investidor, o que você precisa ter, mais do que qualquer outra coisa, é paciência. É preciso disciplina, porque todo dia você abre o jornal e olha os preços das ações, ou outros ativos, e fica maluco. Se você achar uma boa companhia, com uma boa gestão, um bom modelo de negócios e bons produtos, meu conselho é: compre esta ação hoje, coloque em seu portfólio e pare de ler o jornal por uns dois anos. O que eu quero dizer é pra não ficar olhando os preços das ações e as notícias financeiras, porque isso te leva a fazer coisas estúpidas."

Sábias palavras.